terça-feira, 23 de abril de 2013

Genealogia

 Sou um ser do infortúnio, um bastardo do acaso e da circunstância vaga. Sou uma existência em declínio, um respirar sem propósito de regresso ao nada de onde vim, à nulidade da origem disforme e longínqua que me ensombra e me enforma. Sou criação do passado e cinza do tempo por vir.

                                                                                                      Filipe Pimentel

(Sem Título)

 Valliant suspirou pesadamente. Sentia a visão turva das lágrimas, mas o que sentia não era tristeza. Não. O que sentia era algo diferente. Um sentimento de dor imerso na chama incandescente de uma raiva profunda e vingativa.
 Baixou os olhos para a fotografia dos pais que descansava sobre as pernas. Os seus sorrisos pareciam desvanecer-se no ar frio daquela manhã de Outono. O cabelo da mãe caía sobre os ombros estreitos numa cascata de canudos negros e brilhantes que emolduravam  um rosto alvo de feições meigas e delicadas.O seu pai, de envergadura larga e braços fortes, sorria-lhe por entre o farto bigode minuciosamente escovado e perfeitamente simétrico. Numa das mãos segurava uma espingarda de caça, e com a outra envolvia a cintura pronunciada da mulher.
 Ainda se lembrava de quando eles discutiam por causa do que a mãe chamava de "actividade cruel e primitiva". Sir Jonathan Valliant assegurava-lhe que os animais não sofriam, que um tiro certeiro poupáva-lhes a dor, mas Camille resmungava e o pai, para acabar com a discussão, dava-lhe sempre um beijo rápido nos lábios e dizia-lhe que a amava. Camille corava de todas as vezes que isso acontecia e, enquanto do enorme pórtico via o marido afastar-se no carro em direcção ao grande portão da herdade, murmurava "também te amo" para a brisa matinal.
 A memória fez com que os cantos da boca de Valliant se contorcessem no prenúncio de um sorriso que rapidamente morreu sob a luz dourada do nascer do sol.

                                                                                                       Filipe Pimentel

Portugal

Vivo num Portugal escuro sob um sol europeu que ignora quem debaixo do telhado de zinco se abriga. Um Portugal deitado ao Tejo, afogado nas ondas apressadas da tímida traineira que passa. É um Portugal que adormece entre os vapores da uva fermentada e os prantos afónicos que se perdem nas tascas de Alfama. Portugal que vive na lembrança apática de um heroísmo amnésico. Eu, português de um Portugal que sufoca nas páginas de Camões, que se dilui nas lágrimas de Inês, que escorre por entre as pedras imundas da calçada desfeita. Portugal que é levado pela brisa de um suspiro lusitânico, de impotência e saudade do tempo que passou. Portugal de intelectualismos sem voz e de génios sem identidade, de ideologias amorficamente empoeiradas e de moralidades ocas.


                                                                                                     Filipe Pimentel

terça-feira, 21 de junho de 2011

Uma Memória, Apenas...

  A noite cai, lenta e plácida, uma folha que se deixa morrer no ramo retorcido de uma qualquer árvore anoréctica que definha sob o sol quente que se põe no limite do mundo… No céu negro espreita o olhar de prata fundida do astro-imperatriz da sombra serena que se arrasta pelo meu corpo desprotegido. A brisa gelada e severa arrasta-se pela minha pele despida, mas só penso em ti… O gélido vento que me rasga os pulmões, destrói-me a alma e mumifica-me o coração, um estado de letargia eterna que teima em me deixar… Mas só penso em ti… Na bruma que se adensa dentro de mim, sinto o teu toque, o beijo apaixonado de uma labareda devassa e selvagem que ruge no ar nocturno, e então, vejo-te…. Sinto os teus lábios nos meus, um êxtase de paixão que me incendeia!... Sinto o teu corpo no meu, o sopro de uma chama brava no meu pescoço… Desvanece a noite e o sol rompe a escuridão, e eu só penso em ti…
                                                                                                           Filipe Pimentel

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

(Sem Título)

 O negrume lento e melancólico arrasta-se por um céu que teima em se apagar, em deixar partir a luz suave de safira que me lança em torno dos pulsos os grilhos incandescentes que me queimam a pele e me carbonizam os ossos. Os seres perdem os contornos e os corpos já não têm sombras, são as sombras que têm os corpos, é a materialização do incorpóreo, é o crepúsculo das almas puras e sofredoras, é o renascer flamejante das almas apaixonadas, pecadoras.
                                                            
                                            Filipe Pimentel

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pecado Soberano


Um sopro de ar frio passou-me pelo pescoço. A noite anunciou-se plena, soberana, enegreceu-me o coração. A chama que rugia silenciou-se, a sua luz extinguiu-se, levaste-a de mim, fugiste com o calor que me envolvia a alma, e agora choro qual ser cobarde sem propósito algum. Refugio-me no abrigo que me havias construído, amor, mas contigo desapareceu o telhado que me protegia. E agora chove... Correm pelo meu rosto massacrado, cortado de tanta dor reprimida, lágrimas dos anjos, lágrimas minhas... Um pranto que magoa, que me apunhala e nao acaba jamais... Volta! Volta... Vagueio, sem rumo, por entre as memórias que guardo com a vida, com o meu último suspiro, o derradeiro espasmo de vida que fugirá de mim...um dia... Sou folha que voa no vento, a vontade do rugido das ondas, o murmurar da espuma do mar, o sorriso acutilante dos penhascos, lá em baixo, e depois o abismo, chamam-me. Melodia entorpecedora...conforto de um espírito vazio, insubstância vaga, minha fatídica maldição, minha pena constante.

                                                                                                                          Filipe Pimentel

sexta-feira, 30 de julho de 2010

(Sem Título)

A negra névoa sufoca-me, cega-me a alma num beijo de doce acidez que me corrói a pele, a carne, os ossos, cinzas que voam no ar frio que se agita. Sentado a um canto, fogem do meu peito murmúrios chorosos, convulsões lacrimosas que me escorrem pelo rosto escondido entre as mãos, que tremem cobardemente pela tua ausência. Abraço os joelhos contra o peito, lembrando o teu toque que me incendiava o coração numa voluptuosa maré de aromas que me faziam flutuar. Partiste... Sem fôlego, corri para te agarrar, uma última vez, mas tropecei, caí sobre os sonhos que erradamente deixei para trás para te ter só para mim, entregar-me nos braços de um anjo. Sôfrega chama que se extingue, a luz que dos meus olhos se desvanece perdendo-se na irrisória dor que me magoa e consome, quando recordo o teu rosto, o teu corpo, memórias traiçoeiras, melodias ilusórias das ninfas do mar, que me levam à perdição...ao fim de um ser exausto de caminhar na noite, perdido na angústia que me envolve, que me embala numa canção de fria doçura.


                                                                                               Filipe Pimentel